14-09-2018
Vida, sem limites!

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Eu estava em um evento sobre prevenção ao suicídio no qual duas palestras foram apresentadas, uma com abordagem teológica e outra da perspectiva psicanalítica. Ao final, os participantes poderiam fazer perguntas para uma mesa composta por psicanalistas e pastores.

Um pergunta que ficou por muito tempo em minha mente, por não ter sido devidamente respondida, indagava a respeito do papel da igreja local na prevenção de suicídio entre os pastores, fenômeno crescente nos últimos anos, não só no Brasil.

Não que essa seja a solução completa e definitiva, mas pouco se fala a respeito dos limites que não são respeitados na relação da igreja com seu pastor. Sim, há muitos limites que estão sendo cruzados, muitas vezes até sem perceber, que estão a invadir o espaço de construção e atuação da individualidade desse ser que deveria ser considerado como igual a qualquer outro.

Dentre esses limites, gostaria de apresentar alguns para refletirmos e, se ao final pudermos rever algumas abordagens e exigências quanto ao ministério pastoral, penso que o benefício seria de valor incalculável para a qualidade de vida daqueles que Deus estabeleceu a frente de seu rebanho.

É preciso respeitar o limite intelectual.

Embora pareça óbvio, é preciso lembrar e propagar que ninguém possui uma expertise universal. O pastor não tem todas as respostas e nem transita com habilidade por todo e qualquer assunto. Não se pode exigir que o ministro seja habilitado para dominar e orientar em questões que fogem ao seu escopo de formação. Para isso existem os profissionais nos campos do direito, da administração, das terapias relacionais, da economia, enfim!

A impressão que se tem ao analisar certos ministros é a de que paira sobre eles uma aura de sabedoria infinita, a que eu costumo chamar de Síndrome de Onisciência! Creio que muito desse esforço para ter todas as respostas advém dessa pressão por parte da comunidade que tem o perfil danoso do “Nós te pagamos, portanto diga-nos o que fazer”!

É preciso respeitar o limite financeiro.

Em muitas igrejas, a diversidade de classes sociais exige do pastor uma habilidade relacional que quase não se vê em outras situações. Em alguns casos, o círculo de amizade das classes mais abastadas, com ótimas intenções inclusive, quer incluir o pastor em seus eventos, viagens, almoços dentre outros. O problema é que, o investimento que banca esse estilo de vida, pode ser confortável para essas famílias mas inviável para o obreiro.

Outro aspecto, ainda no campo das finanças, é o cuidado que deve haver com o sustento do pastor. Se os rendimentos não forem suficientes, a pressão por sustentar a família de maneira digna e o status exigido pelo paradigma da prosperidade mínima, seja implícita ou explícita, irão comprometer sua performance a frente da comunidade.

É preciso respeitar o limite físico.

Pasmem! Muitos cristãos realmente não acreditam que um pastor pode adoecer, se cansar ou ser acometido por estresse. Algumas igrejas impõem ao pastor um ritmo de trabalho e uma agenda tão cheia que, de maneira desumana, suga toda sua energia. Essa pressão se apresenta muitas vezes de maneira pontual, mas a soma de todas as exigências acaba por exaurir suas forças.

Respeitar o dia de descanso e as férias do pastor, por mais que nos pareça basilar, é um aspecto que tem sido sistematicamente violado na prática. Algumas ovelhas simplesmente não tomam conhecimento dessa necessidade e invadem o descanso, o espaço e a intimidade do pastor, com visitas, ligações e mensagens, solicitando atenção de um “personal pastor”, com demandas que nem sempre requerem urgência, ignorando esse princípio básico.

É preciso respeitar o limite emocional.

Poucos profissionais em suas atuações, são expostos a tanta carga emocional como é o caso dos pastores. São preocupações de ordem da administração eclesiástica, do desenvolvimento integral dos membros, da estabilidade das famílias e dos casamentos e do fazer-se entender nas ministrações e aconselhamentos. Muitos pastores relatam a respeito das noites sem dormir por conta de um problema que envolve uma família ou mesmo a comunidade.

O pastor pode, em um único dia, visitar um recém-nascido pela manhã, ministrar em um velório a tarde e celebrar um casamento a noite. Em que pese o fato desses eventos fazerem parte da dinâmica da vida, a dialética emocional envolvida exige uma saúde psíquica que poucos teriam. Some-se a isso o fato de o pastor, quase sempre, ser um solitário, que socorre a todos e muitas vezes não consegue encontrar com um companheiro de jugo.

Quando o pastor se vê invadido em todos esses limites concomitantemente, por longos períodos e sem auxílio, dificilmente encontrará um escape emocional que possa trazê-lo de volta. As brumas da tristeza e da melancolia podem se tornar em densas nuvens de depressão.

Penso que essa resposta poderia ser dada naquele evento. Dizer que ela atende à dimensão do problema seria simplista demais, mas pode ser um ponto de partida importante no esforço conjunto de enfrentamento da questão.

Paulo, refletindo sobre isso, depois de falar sobre outras privações que passara, assim se expressa a igreja em Corinto: “Além de tudo isso, pesa diariamente sobre mim a responsabilidade que tenho para com todas as igrejas. Ora, quem se enfraquece, que eu semelhantemente não me sinta enfraquecido? Quem se escandaliza, que eu de igual forma não fique indignado? Se, portanto, devo me orgulhar, então que seja nas atitudes que revelam minha própria fraqueza…” (2 Cor. 11.28-30)

Talvez por isso tenha aconselhado o jovem pastor Timóteo com essas palavras: “Tem cuidado de ti mesmo e do teu ensino…” (1 Tm. 4.16)

Que o autor e sustentador da vida nos abençoe!

Pense nisso!

Pr. Gilberto Gedaías Alves

 

     

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